Os descendentes hoje se reúnem, sonham motivos, forjam mentiras, inventam circunstâncias. Fazem dela o que bem querem. Não pode mesmo ser de outra forma. A boca enorme de Rosena está fechada para sempre. Não pode mais sorrir, reclamar de injustiça. Rosena está profundamente calada desde a crise de apendicite do carnaval de 1929. Hibernou, virou retrato. Está perpetuada no Museu da Imagem e do Som. Introduziu sons dodecafônicos no bandolim, enfeitou nossa árvore de mulheres. Mas na casa de Armanda é assunto que não pode ser tocado. Você puxou a avó, desgramada. Quem? Eu?????
Não há trégua. Igualzinha. É quando fazemos das nossas, chegamos ávidas, disfarçando, rondamos a galeria dos parentes com um ar sonso excitado. Queremos nos eximir? Culpá-la? Hoje quero adorá-la. Desenterrá-la com desvelo, sem desmanchar seus pecados. Quem tirou este retrato? Vocês não têm outro assunto?? Fui eu.
Queria ter sido. Rosena cavalgou nua na chuva, viveu na casa grande envidraçada que se entortava na ilha feito uma centopéia. Um dia ela e a filha encontraram perto da entrada o bicho cheio de pernas, Aninha era pequena, se agacharam e olharam, Rosena explicou abrindo a saia É assim uma coisa esquisita cheia de perna e desejo, feito mulher, minha filha, feito nós duas e todas. Aninha repetiu no colégio, vieram reclamar. Dêem-se ao respeito, senhores! Viuvão defendeu. Minha mulher é uma artista! Os filhos cresceram admirando. Tanto amor, tanta paixão. Por que nossa geração a perdeu? Não adianta olhar pro outro lado. Estou falando com você. Quantos anos será que ela tinha? Viuvão não podia saber, ela escondeu sempre a idade, talvez fosse mais velha que ele, tanta dama criada por governanta francesa na Capital da República, Viuvão escolheu a dos olhos. De onde será que ela veio? Filha de cigano? Era bruxa? Nunca vi olhos dessa cor, de orquídea da duna, violeta, alguém mexeu nesse aqui. Em mim também. Vão esconder até quando? Pra que tantas perguntas inúteis?!! Ninguém vai poder responder! Estas malucas fazem o que bem entendem com a história! Querem ser igual a Rosena. Se soubessem! Se soubessem! Coitado do bisavô. Armanda anda sem parar, bate nervosa o tapete, que vergonha, meu Deus, quanta dúvida grudada, terroristas, safadas, diabo de sangue mais forte, Armanda bufa, estremece, parece que reza Livrai-nos Senhor da fúria dos genes Amém. Acaricio o retrato, tanta dívida tecida. Alguém marcou esse esse aqui com o dedo. Vocês não lavam a mão antes de mexer em retrato??? Gente mais mal educada! Me marcaram com uma tatuagem na alma. Pronto. Ninguém mais mexe no álbum, vou trancar. Eu abri e gostei. Uma coisa assim esquisita cheia de perna e desejo, feito nós duas, Aninha, feito elas também e mais todas. Mesmo assim ainda não posso morrer. Quero mais.
Vocês roubaram uns retratos! Cadê? Onde está o bandolim da vó?! Eu quero tanto ele pra mim!!
.Não há trégua. Igualzinha. É quando fazemos das nossas, chegamos ávidas, disfarçando, rondamos a galeria dos parentes com um ar sonso excitado. Queremos nos eximir? Culpá-la? Hoje quero adorá-la. Desenterrá-la com desvelo, sem desmanchar seus pecados. Quem tirou este retrato? Vocês não têm outro assunto?? Fui eu.
Queria ter sido. Rosena cavalgou nua na chuva, viveu na casa grande envidraçada que se entortava na ilha feito uma centopéia. Um dia ela e a filha encontraram perto da entrada o bicho cheio de pernas, Aninha era pequena, se agacharam e olharam, Rosena explicou abrindo a saia É assim uma coisa esquisita cheia de perna e desejo, feito mulher, minha filha, feito nós duas e todas. Aninha repetiu no colégio, vieram reclamar. Dêem-se ao respeito, senhores! Viuvão defendeu. Minha mulher é uma artista! Os filhos cresceram admirando. Tanto amor, tanta paixão. Por que nossa geração a perdeu? Não adianta olhar pro outro lado. Estou falando com você. Quantos anos será que ela tinha? Viuvão não podia saber, ela escondeu sempre a idade, talvez fosse mais velha que ele, tanta dama criada por governanta francesa na Capital da República, Viuvão escolheu a dos olhos. De onde será que ela veio? Filha de cigano? Era bruxa? Nunca vi olhos dessa cor, de orquídea da duna, violeta, alguém mexeu nesse aqui. Em mim também. Vão esconder até quando? Pra que tantas perguntas inúteis?!! Ninguém vai poder responder! Estas malucas fazem o que bem entendem com a história! Querem ser igual a Rosena. Se soubessem! Se soubessem! Coitado do bisavô. Armanda anda sem parar, bate nervosa o tapete, que vergonha, meu Deus, quanta dúvida grudada, terroristas, safadas, diabo de sangue mais forte, Armanda bufa, estremece, parece que reza Livrai-nos Senhor da fúria dos genes Amém. Acaricio o retrato, tanta dívida tecida. Alguém marcou esse esse aqui com o dedo. Vocês não lavam a mão antes de mexer em retrato??? Gente mais mal educada! Me marcaram com uma tatuagem na alma. Pronto. Ninguém mais mexe no álbum, vou trancar. Eu abri e gostei. Uma coisa assim esquisita cheia de perna e desejo, feito nós duas, Aninha, feito elas também e mais todas. Mesmo assim ainda não posso morrer. Quero mais.
Vocês roubaram uns retratos! Cadê? Onde está o bandolim da vó?! Eu quero tanto ele pra mim!!
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